A médica Dra. Giselle explica o que há de verdade em promessa , como botox em creme
Todo ano, o mercado estético precisa de uma novidade. Um ingrediente salvador. Uma promessa que renove o interesse, gere vendas e mantenha o ciclo de consumo girando.
Em 2026, a bola da vez são os botopeptídeos. Dermocosméticos anunciam fórmulas revolucionárias.
Clínicas prometem resultados “tipo botox, mas sem agulha”. Redes sociais explodem com antes e depois.A médica Dra. Giselle conta que pacientes chegam em seu consultório perguntando: “Doutora, é verdade que agora tem botox em creme?” Ela explica o que são os botopeptídeos
“Peptídeos são sequências curtas de aminoácidos que, em tese, podem interferir em processos biológicos específicos. No caso dos chamados “botopeptídeos”, a proposta é minimizar o efeito da toxina botulínica, reduzindo a contração muscular facial”, esclarece.
A médica diz que a teoria chama a atenção: se a toxina botulínica bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular (impedindo que o músculo contraia), um peptídeo poderia fazer algo semelhante ao interferir na mesma via de sinalização — mas de forma tópica, sem injeção.
Peptídeos como Argireline (acetil hexapeptídeo-8), Syn-Ake (dipeptídeo diaminobutiril benzilamida diacetato) e outros entraram no mercado cosmético há anos com essa promessa.Então por que agora, em 2026, isso virou “grande lançamento”? Porque o mercado precisa revender o que já existia com nova embalagem.
O que a ciência realmente diz
Segundo Dra. Giselle Mello, existem pesquisas in vitro (em laboratório) mostrando que alguns peptídeos podem influenciar a liberação de neurotransmissores. “Existem estudos pequenos, em condições controladas, sugerindo alguma redução de linhas finas.Mas — e aqui está o ponto que o marketing ignora — eficácia em laboratório não é eficácia clínica real”.
Ela lista os desafios que essas substâncias enfrentam para fazer efeito:
1. Penetração cutânea
Peptídeos são moléculas relativamente grandes. A pele tem uma barreira projetada para NÃO deixar substâncias externas entrarem facilmente. Para um peptídeo atingir a junção neuromuscular (que fica abaixo da derme, entre músculo e nervo), ele precisaria atravessar múltiplas camadas de pele — algo que a maioria dos peptídeos simplesmente não consegue fazer em concentração suficiente.
Veículos sofisticados (nanotecnologia, lipossomas) melhoram isso? Sim, marginalmente. Resolvem o problema? Não completamente.
2. Concentração e estabilidade
Mesmo que o peptídeo penetre, a concentração que chega ao alvo é ínfima comparada à dose de toxina botulínica injetada. E peptídeos são moléculas instáveis — degradam facilmente com luz, calor, pH inadequado.
Aquele potinho na sua penteadeira, exposto a variações de temperatura, usado com as mãos, aberto e fechado repetidamente… está mantendo a estabilidade molecular do peptídeo? Improvável.
3. Evidência clínica robusta
Onde estão os grandes estudos clínicos randomizados, duplo-cegos, com grupos controle, mostrando eficácia comparável à toxina botulínica injetável?
Não existem.
O que existem são estudos pequenos, muitas vezes financiados pelos próprios fabricantes, com resultados modestos e sujeitos a viés.
O que botopeptídeos realmente fazem
A médica diz que alguns peptídeos têm, sim, efeito. Mas é preciso dimensionar esse efeito corretamente. De acordo com Dra Giselle, eles podem:
Reduzir discretamente linhas finas de expressão em algumas pessoas
Oferecer hidratação e melhora de textura (mais pelo veículo cosmético do que pelo peptídeo em si)
Funcionar como coadjuvante em protocolo integrado de skincare
Ela lista o que eles não fazem:
Substituir toxina botulínica
“Congelar” expressões faciais
Eliminar rugas profundas
Oferecer resultado visível em dias ou semanas
“Se você tem rugas dinâmicas moderadas a severas e quer resultado real, a toxina botulínica injetável ainda é o padrão-ouro. Sem comparação”, acrescenta.
Por que o mercado empurra isso agora?
A especialista diz que porque o mercado estético vive de dois combustíveis: medo e esperança. “Medo de envelhecer. Esperança de solução fácil.
Botopeptídeos vendem porque prometem o benefício (efeito botox) sem o “custo” (agulha, médico, investimento). É marketing perfeito: todo o desejo, nenhum obstáculo.
Mas a realidade é outra. Não existe botox de farmácia. Não existe resultado injetável em creme. E a indústria cosmética sabe disso”.
Dra. Giselle Mello afirma que que o que o mercado vende não é eficácia absoluta. “É conforto emocional. A sensação de “estar fazendo algo”. E, convenhamos, muitas vezes isso já vale alguma coisa. Mas não é medicina. É consumo”.
Ela destaca quando considerar botopeptídeos “Eu não sou contra peptídeos. Uso em protocolos de skincare. Mas com clareza de papel: Para prevenção em pele jovem, sem rugas instaladas Como coadjuvante, não protagonista Em formulações bem feitas, estáveis, com veículos adequados Com expectativa realista: melhora sutil, não transformação”
Se você tem 30 anos, pele saudável e quer manter, a médica diz que os peptídeos são uma boa estratégia. “Se você tem 50 anos, rugas profundas e quer “evitar o botox”, está perdendo tempo e dinheiro”, esclarece.
Dra. Giselle Mello listou algumas recomendações:
Se você quer cuidar da pele com inteligência, invista no que tem evidência sólida:
Protetor solar — todos os dias, sem exceção
Retinoides — quando indicados, com acompanhamento
Antioxidantes de qualidade — vitamina C estabilizada, vitamina E, niacinamida
Hidratação adequada — ácido hialurônico, ceramidas
Procedimentos médicos quando necessários — toxina botulínica, bioestimuladores, lasers, peelings
E, principalmente: saúde de dentro para fora. Alimentação anti-inflamatória, hidratação, sono, controle de estresse. Nenhum peptídeo substitui isso.
Ela acrescenta que os Botopeptídeos não são vilões. “São coadjuvantes superestimados.
O problema não é o produto. É a narrativa. É vender como revolução algo que, na melhor das hipóteses, é suporte discreto. Se você quer usar, use. Mas saiba o que está comprando: um cosmético, não um tratamento médico. Uma ajuda, não uma solução. E se alguém te prometer “resultado igual ao botox sem agulha”, desconfie. Porque quem promete o impossível não está sendo honesto — está sendo vendedor. Beleza sustentável não vem de modismos anuais. Vem de ciência aplicada com responsabilidade e tempo”, conclui.










