Fernanda Porto: uma trajetória marcada pela inovação e pela música brasileira

Em entrevista ao É POP, a artista relembra momentos marcantes de sua trajetória, como a parceria com Chico Buarque em “Roda Viva”, a indicação ao Grammy Latino, o sucesso de “Sambassim” e a conexão de sua música com novas gerações, incluindo o público do BTS. Foto: Divulgação

Pioneira na fusão da música eletrônica com ritmos brasileiros, artista relembra parceria com Chico Buarque, indicação ao Grammy Latino e revela novos projetos

A história de Fernanda Porto com a música começou muito cedo. Aos sete anos, ela já compunha músicas para festivais escolares. Aos 14, descobriu que existia faculdade de música e decidiu seguir por esse caminho, mesmo sem vir de uma família de artistas ou do meio musical.

“Eu comecei realmente muito cedo: praticamente com sete anos comecei a compor música para festivais de escola”, relembra a artista.

Fernanda ingressou na faculdade como pianista, mas logo percebeu que sua principal força estava na criação. Por isso, passou a estudar composição e regência. Entre seus professores esteve o maestro alemão Hans-Joachim Koellreutter, que também foi professor de Tom Jobim e teve papel importante na introdução da música eletroacústica no Brasil.

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Foi na faculdade que Fernanda começou a frequentar laboratórios de música eletrônica. A tecnologia musical e a possibilidade de experimentar novas sonoridades passaram a fazer parte de sua identidade artística.

“A tecnologia musical e a busca de novas sonoridades sempre me interessaram”, afirma.

Ainda na faculdade, ela começou a criar trilhas sonoras para videoarte, trabalhando com recursos MIDI e sincronização de áudio e vídeo. Desde então, a pesquisa por novas possibilidades sonoras nunca mais parou.

“Confesso que, desde então, a pesquisa nunca mais parou… aliás, não dá para parar.”

A descoberta do drum’n’bass

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A aproximação de Fernanda Porto com o drum’n’bass aconteceu durante suas pesquisas por novos softwares de criação. Foi nesse período que conheceu Xerxes de Oliveira, conhecido como XRLS LAND, que apresentou algumas de suas produções.

Curiosa com aquele universo musical, Fernanda decidiu aprofundar sua pesquisa e viajou para Londres, onde permaneceu durante seis meses estudando e vivenciando o estilo. “Fui para Londres, onde tudo surgiu, e fiquei seis meses pesquisando e ouvindo ‘in loco’ esse estilo pelo qual, sinceramente, me apaixonei.”

O desafio passou a ser encontrar uma maneira de unir aquela sofisticação rítmica à canção brasileira. “Meu desafio era misturar isso com a canção.”

Durante esse processo, Fernanda percebeu que diferentes ritmos brasileiros poderiam dialogar com a música eletrônica, especialmente o maracatu, o ijexá, a bossa nova e o samba. Ela começou a desenvolver essas experiências de forma independente até encontrar coragem para apresentar suas ideias.

Um dos momentos decisivos aconteceu quando o DJ Patife conheceu sua versão de “Sambassim” e decidiu fazer um remix. Para Fernanda, a música acabou se tornando uma espécie de manifesto de sua proposta artística.

Chico Buarque e uma parceria inesquecível

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Entre os capítulos mais marcantes da carreira de Fernanda Porto está a parceria com Chico Buarque. A oportunidade surgiu por meio do diretor Toni Venturi, com quem a artista já havia trabalhado em trilhas sonoras.

Venturi a procurou para produzir a trilha do filme Cabra Cega, ambientado no período da ditadura brasileira. A proposta era criar novas versões para canções que marcaram aquela época. Entre as músicas apresentadas estavam “Roda Viva”, “Construção” e “Rosa dos Ventos”.

O encontro com Chico acabou resultando em um convite para que o cantor gravasse com Fernanda. Antes da gravação, ela explicou que havia alterado a métrica de “Roda Viva” e acrescentado beats eletrônicos sobre uma base de maracatu.

“Eu gostei, acho que combina com a ideia essencial da letra, falando de velocidade”, teria respondido Chico diante da proposta.

A gravação se tornou uma experiência inesquecível. “Ele então colocou os fones e cantou 26 vezes a música”, conta Fernanda, que destaca a dedicação e o respeito profissional demonstrados pelo cantor.

“Ali eu pude conhecer sua dedicação e o respeito profissional. Foi algo que me deixou extremamente realizada como produtora musical.”

Para ela, a experiência ultrapassou a dimensão profissional. “Para mim, mais que tudo, tive a oportunidade de gravar com um artista de verdade, que chegou com a naturalidade de um menino.”

O reconhecimento internacional

A carreira de Fernanda também ganhou projeção internacional com sua indicação ao Grammy Latino na categoria Artista Revelação. Curiosamente, ela conta que sequer sabia que estava concorrendo.

“Eu nem sabia que estava concorrendo ao Grammy Latino!”, revela.

Na mesma época, a artista participou do Brazilian Film Festival, em Miami, ao lado do grupo de taikô FUSHU DAIKO. A apresentação uniu os tambores japoneses ao seu trabalho musical e recebeu cinco bis.

Fernanda considera a indicação um presente e acredita que aquele momento teve importância significativa para sua carreira internacional.

“Foi muito importante na minha carreira; acredito que, a partir desse momento, comecei a existir no mercado internacional.”

Marina Lima e o Acústico MTV

Outro momento importante aconteceu quando Marina Lima a convidou para participar do Acústico MTV. Fernanda foi chamada para fazer os arranjos e também tocou saxofone no projeto.

Embora seja conhecida pelo público como cantora e compositora, ela acredita que sua identidade musical está profundamente ligada ao trabalho de produção.

“Eu acho que a minha identidade musical está muito ligada ao que eu produzo.”

O processo de experimentação continua sendo uma parte fundamental de sua rotina criativa. “Sou viciada nesse ‘laboratório musical’ que a tecnologia permite.”

Fernanda também revela sua admiração por Marina Lima. “Eu considero a Marina Lima a compositora que mais admiro no Brasil. Ela é única! Sua identidade me emociona.”

Uma música que atravessa gerações

Décadas depois do início de sua carreira, Fernanda Porto continua vendo seu trabalho chegar a novos públicos. Um dos episódios que mais a surpreendeu recentemente foi quando V, integrante do BTS, cantou “Sambassim” durante uma live.

“Ver o V tocando, em sua primeira live depois do tempo que ficou no exército, e cantando ‘Sambassim’ foi uma grande surpresa, mais uma vez.”

A artista acredita que, depois que uma música é lançada, ela passa a seguir seu próprio caminho. “Como artista, sei que nunca tive ‘controle’ e nunca terei do que acontece com o que faço.”

A evolução da música eletrônica brasileira

Fernanda acompanhou de perto a transformação da música eletrônica brasileira e avalia que o cenário atual está muito mais aberto à mistura de diferentes estilos.

“O que me alegra muito atualmente é que muita coisa aconteceu”, afirma.

Para ela, existe hoje uma naturalidade maior entre artistas que permitem que diferentes sonoridades influenciem seus trabalhos. “A música eletrônica brasileira evoluiu demais; temos sempre novos nomes de DJs e produtores nos principais festivais do mundo.”

Corpo Elétrico e Alma Acústica

Durante a pandemia, Fernanda lançou o projeto “Corpo Elétrico e Alma Acústica”, que representa justamente a convivência entre diferentes universos musicais.

“‘Corpo Elétrico e Alma Acústica’ veio justamente para dizer que sempre viverei com esses ‘mundos’.”

A artista também destaca o DVD Fernanda Porto ao Vivo, lançado pela EMI, projeto que reuniu mais de 30 músicos em uma gravação ao vivo.

A música eletrônica continua sendo uma das principais ferramentas de criação da artista. “Sei que a música eletrônica e a experiência sonora que vem desse laboratório continuam sendo a principal ferramenta de criação para a minha identidade musical.”

Nesse caminho, Fernanda criou o selo TropicalLab, buscando um ambiente próprio dentro do mercado da música eletrônica brasileira. Atualmente, sua trajetória também passa pela DNBB Music Group.

A conexão com a nova MPB

A curiosidade pelo que está sendo produzido atualmente levou Fernanda ao álbum Contemporâne@, que revisita canções de artistas como Jão, Mahmundi e Rubel.

“O novo sempre me interessa”, afirma.

Para a artista, conhecer novos compositores, sonoridades e formas de expressão é essencial para continuar criando.

“Eu jamais ficaria ouvindo só os mestres da minha geração.”

O projeto nasceu a partir de um convite do DJ Zé Pedro, que admirava especialmente a maneira como Fernanda canta e toca piano ao mesmo tempo. Os dois escolheram juntos as músicas que fariam parte do trabalho.

Fernanda faz questão de defender a força dos novos compositores brasileiros. “Não me venham dizer que a canção brasileira acabou. Procure novos artistas e se surpreenda!”

O silêncio como parte do processo criativo

Depois de mais de duas décadas de carreira, continuar inovando sem perder a identidade é um dos desafios de Fernanda. Para ela, a resposta está na pesquisa, mas também no silêncio.

“Gosto da pesquisa. Gosto do silêncio.”

A artista explica que seu processo criativo exige momentos de isolamento. “Meu tempo de criação é muito importante. Me isolo mesmo.”

E resume sua relação com a criação de maneira direta: “Meu laboratório me devolve o que procuro quando revejo experiências. Meu caminho é solitário mesmo.”

Tom Jobim no próximo capítulo

Mesmo com uma carreira marcada por importantes projetos e parcerias, Fernanda Porto continua buscando novos desafios. Um deles já está em andamento: leituras eletrônicas da obra de Tom Jobim.

“Estou fazendo leituras eletrônicas com a obra de Jobim.”

Para a artista, as canções do compositor continuam atuais e desafiadoras. “Afinal, suas canções desafiam o tempo.”

Identidade acima de tudo

Ao olhar para o início de sua carreira, Fernanda afirma que manteria seu caminho musical e destaca a importância de preservar a identidade artística.

“Musicalmente, siga o que fez. Proteja-se no principal dos processos criativos, que é ter identidade.”

Depois de tantos anos dedicados à música, seu conselho para quem está começando é simples e direto: “Permanecer. Tratar como ofício. Cuidar. Isso é tudo!”

Fernanda Porto segue, assim, fiel ao espírito que acompanha sua trajetória desde os primeiros experimentos: pesquisar, experimentar e encontrar novas possibilidades para a música brasileira. Uma carreira construída entre a tecnologia, a canção e a liberdade de transformar referências em algo novo.

 

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