Reconfiguração altera valores econômicos, sociais e ambientais
O setor cultural atravessa uma reconfiguração que altera não apenas onde a arte é produzida e comercializada, mas também quem financia, como circula e quais valores econômicos, sociais e ambientais passam a orientar decisões de artistas, galerias, museus, colecionadores e eventos.
O cenário é analisado por especialistas. De acordo com a economista da Arts Economics, Clare McAndrew, “o mercado vive uma reconfiguração estrutural com geografias e canais de venda em mutação”.
Para o professor e consultor com atuação em economia do mercado da arte, Thierry Chemalle, pensar 2026 é entender como o ecossistema se recompõe após um ciclo de correção.
“Um sinal positivo dessa adaptação é a resiliência do ecossistema. Mesmo diante de juros elevados, tensões geopolíticas e incertezas macroeconômicas, o mercado da arte mostrou capacidade de adaptação. O interesse por feiras se mantém elevado, o tráfego qualificado voltou a crescer e a circulação internacional de obras permaneceu ativa”, destaca.
Dessa forma, o cenário se mantém propício à realização de evento de criatividade 2026, como encontros, feiras, exposições, bienais, festivais e outras atividades ligadas ao setor cultural.
Tecnologia e comportamento impactam o setor
Uma dessas reconfigurações diz respeito à tecnologia. Após o entusiasmo inicial, segundo Chemalle, plataformas digitais, dados e Inteligência Artificial (IA) deixam de ser promessas abstratas e passam a atuar como infraestrutura invisível do mercado, apoiando precificação, ampliando acesso, reduzindo assimetrias e fortalecendo a confiança.
Nesse contexto, os eventos culturais, como feira da criatividade, exposição imersiva e encontro de networking, se reposicionam como ambientes híbridos, onde experiências físicas e digitais se combinam para potencializar visibilidade e conexões.
Outra movimentação vem de heranças recordes. Estudo do banco suíço UBS concluiu que os super-ricos estão herdando níveis recordes de riqueza, quando bilhões de dólares são transferidos para filhos, netos e cônjuges.
Com isso, foram identificadas duas tendências. Uma delas é que colecionadores de alto patrimônio líquido destinaram, em média, 20% de sua riqueza à arte. Entre aqueles com mais de US$ 50 milhões em ativos, essa proporção chegou a 28%. Já os colecionadores da Geração Z, nascidos entre o fim dos anos 1990 e o início dos anos 2000, registraram 26%.
A outra tendência é que 84% dos colecionadores de alto patrimônio líquido pesquisados herdaram obras de arte, que representam quase 30% das peças que possuem. Quase 90% dos colecionadores da Geração Z que herdaram obras optaram por mantê-las.
Mudança geográfica traz pluralidade
Geograficamente, o otimismo se reflete em um mercado menos concentrado e mais plural, como é o caso do Golfo Pérsico, que emerge como novo polo global. Enquanto os grandes centros seguem fortes, mercados regionais e cenas locais ganham relevância.
Segundo Chemalle, o crescimento do mercado cultural não ocorre apenas onde há capital, mas onde há narrativa, institucionalidade e capacidade de articulação. “Para países como o Brasil, esse movimento reforça oportunidades reais de inserção, desde que acompanhadas de estratégia e consistência.”
De acordo com o crítico de arte, Alan Mattli, os centros de poder da arte estão se deslocando para o Golfo Árabe, já que a região tem se tornado um campo de disputa no duelo geopolítico entre a Art Basel e a Frieze, as principais feiras de arte internacionais do mundo.
Além disso, o fundo soberano de Abu Dhabi detém uma participação minoritária na casa de leilões multinacional de origem britânica, hoje sediada em Nova York. Abu Dhabi já abriga uma espécie de franquia do Louvre, além de ter inaugurado dois novos museus, o Zayed National Museum e um Museu de História Natural.
Enquanto isso, a lista anual das cem pessoas mais influentes no campo da arte, publicada pela Art Review, incluiu dois líderes artísticos da região entre as dez primeiras posições.
Tendências para a indústria criativa
Pensando de forma estratégica, a CEO e cofundadora da MugShot, Punks S/A e CasaBlack, Gilvana Viana, lista cinco tendências da indústria criativa para 2026. “No Brasil, criatividade, território e diversidade têm se mostrado ativos estratégicos para marcas, instituições e criadores.”
Uma dessas tendências é a criação de conteúdos multissensoriais, que proporcionem experiências híbridas, integrando moda, design, gastronomia, audiovisual, música e performance em narrativas únicas, além de impulsionar práticas como o pitching audiovisual, que conecta criadores a investidores e plataformas. O foco no território faz com que cidades, ruas, becos e paisagens urbanas deixem de ser apenas cenário e passem a atuar como personagens centrais das narrativas criativas.
Outra tendência é a realidade virtual e aumentada, que deixa de ser experimento para figurar no planejamento criativo. O afrofuturismo como metodologia de inovação é um movimento cultural, estético e político que combina ancestralidade africana, tecnologia e ficção especulativa. Este ano, a tendência é que a abordagem passe a ser cada vez mais aplicada ao mercado criativo não apenas como estética, mas como metodologia de inovação.
Outra tendência é o áudio como identidade de marca,quando o som deixa de ser coadjuvante e passa a ocupar o centro das estratégias de branding.
Panorama do setor cultural brasileiro
Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam um cenário ambíguo para o setor cultural brasileiro. Se por um lado cresce o número de empresas e de pessoas ocupadas, a participação da cultura na economia nacional segue em queda ao longo da última década.
De acordo com o levantamento do Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC), o setor cultural alcançou 5,9 milhões de pessoas ocupadas em 2024, o maior patamar desde 2014. Esse número representa 5,8% do total de ocupados no país, reforçando a cultura como um dos campos mais relevantes na geração de trabalho e renda.
Outro dado positivo é o avanço no número de empresas ligadas à cultura. Entre 2013 e 2023, a participação das empresas culturais no total das atividades econômicas analisadas pelo IBGE passou de 8% para 8,6%, indicando crescimento, diversificação e maior formalização do setor, especialmente nas áreas de audiovisual, música, design, literatura, artes visuais e produção cultural independente.
Apesar dos avanços, o estudo revela perda de participação econômica da cultura. Em 2023, a receita líquida do setor cultural foi estimada em R$ 910,6 bilhões, com valor adicionado de R$ 387,9 bilhões. Ainda assim, a contribuição relativa do setor no conjunto da economia brasileira diminuiu nos últimos dez anos, evidenciando uma lacuna entre geração de empregos e retorno econômico de forma proporcional.
Os dados mostram, ainda, que o Índice de Preços da Cultura (IPCult) apresentou crescimento inferior ao IPCA, indicando que produtos e serviços culturais tiveram reajustes abaixo da inflação média. Embora isso possa ampliar o acesso do público à cultura, o movimento pressiona a sustentabilidade financeira de artistas, produtores e empreendedores culturais.
A saída para esse cenário, segundo especialistas, seria o desenvolvimento de políticas públicas estruturantes, financiamento contínuo e estratégias de fortalecimento econômico do setor cultural.
“Para cada real de investimento público, o retorno para a economia como um todo é maior do que na indústria automobilística. O investimento público em artes e cultura contribui muito mais para a economia do que grande parte da indústria manufatureira tradicional. No entanto, os governos continuam investindo mais nesses setores tradicionais da indústria, mesmo que as evidências estejam aí”, afirma a economista Mariana Mazzucato.














