Diego Romero analiza era do ‘luxo silencioso’ e por que estilo, hoje, é sobre repertório, não ostentação

Durante muitos anos, o luxo foi associado ao excesso. Logos gigantes, ostentação, exagero e a necessidade constante de provar status. Mas algo mudou. E talvez essa seja a maior transformação do mercado na última década.

Hoje, o verdadeiro luxo está cada vez mais silencioso.

“As pessoas mais sofisticadas já não querem apenas peças caras. Elas querem história, curadoria, exclusividade e principalmente identidade. O desejo deixou de ser mostrar que se pode comprar e passou a ser mostrar repertório”, afirma o stylist Diego Romero.

Para o psicanalista João Borzino, o movimento reflete uma mudança psíquica. “A ostentação era um pedido de validação externa. ‘Me vejam, eu venci’. O luxo silencioso é o oposto: ‘eu me vejo, eu me basto’. É um deslocamento do olhar do outro para o olhar sobre si. Isso é maturidade emocional traduzida em consumo”.

O que o silêncio comunica

Uma Birkin antiga com marcas do tempo pode dizer mais sobre estilo do que uma bolsa recém-saída da loja. Um relógio herdado, um lenço raro, uma joia usada da forma certa ou até um perfume quase impossível de encontrar carregam algo que dinheiro sozinho não compra: narrativa.

“O luxo moderno está menos ligado à aprovação externa e mais ligado à construção de um universo pessoal”, diz Diego Romero. “A cliente não quer parecer rica. Quer parecer interessante. E isso muda tudo, porque estilo nunca foi sobre quantidade. Sempre foi sobre intenção”.

João Borzino completa: “Psicanaliticamente, o excesso grita quando há um vazio. A logomania é barulho pra abafar insegurança. O luxo silencioso é escolha. É quando a pessoa já sabe quem é e não terceiriza sua autoestima pro crachá da marca. As pessoas mais elegantes raramente são as que usam mais informação visual. Normalmente são as que sabem exatamente quem são”.

Por que o vintage virou o novo poder

Talvez por isso o mercado vintage tenha crescido tanto. “As pessoas estão cansadas do consumo rápido. Existe uma busca cada vez maior por peças com alma, por itens que não pareçam apenas tendência, mas extensão da personalidade de quem usa”, explica Diego Romero.

João Borzino aponta o ganho simbólico: “Comprar vintage é comprar tempo. É adquirir a história de outro e ressignificar na sua. Isso gera dopamina de longo prazo, não o pico ansioso do lançamento. É consumo que ancora, não que dispersa”.

O tempo como item de luxo

O verdadeiro luxo também está no tempo. No atendimento sem pressa. Na experiência. Na exclusividade discreta. Na peça que não precisa de explicação. Na sofisticação que não depende de validação.

“Em uma era onde todos tentam chamar atenção o tempo inteiro, talvez o maior símbolo de poder seja justamente não precisar provar nada para ninguém”, resume Diego Romero.

João Borzino arremata: “Silêncio é o novo statement. Quando você para de performar riqueza, começa a habitar identidade. E identidade, hoje, é o ativo mais raro. O luxo que não grita é o que finalmente pode ser.
Para padrões de consumo compulsivo ou busca constante por validação externa, procure um profissional de saúde mental.

Matéria anterior
Mulheres, celulite e o método Bodyincision: o que muda quando o tratamento vai além da superfície

Mais do É Pop

Autor (a) da postagem