Heitor Werneck: 20 anos de Luxúria e uma vida inteira fazendo da diferença sua maior obra

Figurinista, estilista, produtor cultural e ativista, Heitor ajudou a construir a história da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo, levou sua estética para a televisão, transformou o fetiche em expressão cultural, criou ações para pessoas em situação de vulnerabilidade e encontrou no diagnóstico de autismo, já adulto, novas respostas para a própria trajetória

Antes de diversidade virar posicionamento de marca, antes de couro, látex, corsets e referências fetichistas chegarem às passarelas e à cultura pop, Heitor Werneck já transitava por esse universo. Não como observador, mas como alguém disposto a transformar aquilo que era considerado marginal em linguagem, moda, espetáculo e liberdade.

Em 2026, o Projeto Luxúria completa 20 anos em São Paulo. A marca de duas décadas oferece um bom ponto de partida para revisitar a trajetória de seu criador, um personagem difícil de resumir em uma única profissão.

Heitor é estilista, figurinista, produtor cultural, diretor artístico, ativista e um dos nomes que acompanharam a construção da cultura LGBTQIA+ paulistana nas últimas décadas. Passou pelo underground, pela televisão, pela moda, pela noite e por alguns dos maiores eventos de diversidade do país. No caminho, enfrentou um câncer, recebeu o diagnóstico de autismo na vida adulta e fez do acolhimento de pessoas socialmente vulneráveis outra frente de sua atuação.

Sua história, de alguma maneira, sempre esteve ligada a quem não cabia.

Da contracultura para a televisão brasileira

A estética de Heitor começou a ganhar forma na efervescência cultural da São Paulo dos anos 1980. Ligado à cena punk e ao universo underground, ele frequentou espaços como o lendário Madame Satã e encontrou na moda uma maneira de transformar comportamento em imagem.

Nos anos 1990, criou a Escola de Divinos, grife que dialogava com referências punk, góticas, clubber e fetichistas muito antes de essa estética ocupar o mainstream.

Depois, aquele repertório atravessou uma fronteira improvável: saiu da noite alternativa para chegar à televisão aberta.

Como figurinista e consultor, Heitor acumulou trabalhos em produções como Vamp, A Viagem, Malhação, Pecado Capital, Sai de Baixo, Casseta & Planeta e Confissões de Adolescente. Também desenvolveu trabalhos ligados a nomes da música como Rita Lee, RPM, Jota Quest, O Rappa, Rouge e Exaltasamba.

Se hoje a moda celebra a mistura entre referências underground e luxo, Heitor pertence a uma geração que ajudou a construir esse caminho quando ser diferente ainda custava caro.

Luxúria chega aos 20 anos

Em 2006, nasceu o Projeto Luxúria. A proposta colocava fetiche, performances, moda e comportamento no mesmo espaço e ajudava a criar um ambiente no qual desejos e identidades que permaneciam escondidos fora dali poderiam existir com outras regras: consentimento, respeito e liberdade.

Duas décadas depois, a longevidade impressiona.

O fetiche mudou de lugar na cultura. Elementos que antes pertenciam quase exclusivamente a nichos passaram para videoclipes, campanhas, passarelas e redes sociais. O Luxúria, entretanto, permaneceu.

Para Heitor, o projeto tem também um significado pessoal. Depois de enfrentar um câncer e passar por um período delicado, encontrou na criação uma maneira de se reconectar com a vida. Em entrevista ao portal iG, definiu o que a festa representou naquele momento: “O Luxúria foi uma terapia. Uma forma de eu me segurar à vida com prazer”.

A frase ajuda a explicar por que falar sobre os 20 anos da festa significa inevitavelmente falar sobre sobrevivência.

Da noite para a maior Parada LGBT+ do país

A atuação de Heitor nunca ficou restrita ao circuito fetichista. Ele também está ligado à trajetória da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo e ocupou funções relacionadas à produção e à direção artística do evento, além de participar de outras iniciativas de diversidade.

Sua militância atravessou ainda a moda. Heitor colocou drag queens e casais homoafetivos em seus trabalhos quando representatividade estava longe de possuir a visibilidade que conquistou posteriormente.

Para ele, ocupar espaços sempre foi também uma forma de disputar narrativas.

O mesmo homem que trabalha com espetáculo, figurino e grandes eventos aprendeu a usar visibilidade para colocar outras pessoas sob a luz.

Quando ninguém está olhando

Existe, porém, uma parte de sua trajetória que acontece longe dos palcos.

Heitor também se dedica a ações sociais voltadas a pessoas em situação de rua, especialmente integrantes da população LGBTQIA+ em contextos de vulnerabilidade. Durante a pandemia, esteve envolvido na Rede Parada pela Solidariedade, iniciativa que mobilizou doações e apoio.

Ao longo dos anos, essa preocupação também chegou a seus eventos, com campanhas de arrecadação de alimentos e produtos de higiene.

Para alguém cuja carreira foi construída em torno da visibilidade, talvez não seja coincidência que uma de suas batalhas seja justamente por aqueles que a cidade deixou de enxergar.

Heitor conhece pessoas nas ruas pelo nome, acompanha histórias, ajuda em encaminhamentos e fala com incômodo sobre a dificuldade de acesso dessa população aos serviços de saúde e assistência.

Para ele, diversidade que só existe no palco é insuficiente.

O diagnóstico que reorganizou sua própria história

Outra transformação aconteceu quando Heitor recebeu, já adulto, o diagnóstico de autismo.

A descoberta ofereceu uma nova interpretação para características que o acompanharam durante décadas. Comportamentos anteriormente descritos por outras pessoas como “mania”, “birra”, excentricidade ou dificuldade passaram a ser compreendidos dentro da neurodivergência.

Mais do que mudar quem ele era, o diagnóstico ajudou a explicar quem sempre havia sido.

A percepção intensa de estímulos, a relação com detalhes, a maneira particular de organizar pensamentos e sua própria experiência social passaram a ganhar outro sentido. Desde então, Heitor também incorporou a neurodiversidade às discussões que defende publicamente.

Há uma ironia bonita nessa descoberta: um homem que passou a vida defendendo o direito de outras pessoas serem diferentes precisou chegar à maturidade para compreender melhor a própria diferença.

Uma carreira construída sem pedir licença

Heitor atravessou a cena punk, a moda dos anos 1990, a televisão, a noite paulistana, a cultura fetichista, o movimento LGBTQIA+ e as transformações de comportamento de um país que mudou muito, embora ainda preserve muitos dos preconceitos contra os quais ele começou a lutar.

Sobreviveu ao câncer. Descobriu-se autista. Produziu grandes eventos. Vestiu artistas. Criou festas. Ajudou pessoas que vivem nas ruas. Incomodou conservadores e, algumas vezes, a própria comunidade à qual pertence.

Agora, o Luxúria chega aos 20 anos enquanto boa parte da estética que Heitor ajudou a tirar das sombras aparece nas vitrines, nos editoriais e no corpo das maiores estrelas do mundo.

Talvez essa seja uma das maiores conquistas de sua trajetória.

Heitor Werneck nunca pareceu interessado em entrar em espaços que já estavam prontos para recebê-lo.

Preferiu criar os próprios.

E, quando conseguiu entrar, quase sempre deixou a porta aberta para alguém passar depois.

PINGUE-PONGUE | HEITOR WERNECK SEM CENSURA

Depois de 20 anos de Luxúria, o fetiche deixou de ser tabu ou apenas virou uma estética vendável?

Heitor Werneck: Acho que existe uma diferença enorme entre consumir uma estética e respeitar quem faz parte daquela cultura. Hoje você vê couro, látex, coleiras e várias referências fetichistas na moda e na música. Isso ajuda a tornar algumas imagens menos chocantes, mas não significa que o preconceito desapareceu. A sociedade aceita muito melhor a transgressão quando ela está em uma campanha bonita do que quando encontra uma pessoa que realmente vive fora dos padrões.

O BDSM ganhou as redes sociais. Isso democratiza ou banaliza uma cultura que levou décadas para conquistar respeito?

Heitor Werneck: Pode fazer as duas coisas. Acho maravilhoso que as pessoas tenham curiosidade e encontrem informação, mas BDSM não é simplesmente vestir uma roupa ou reproduzir uma cena. Existe consentimento, negociação, limites, confiança e responsabilidade. Quando você retira tudo isso e deixa apenas a estética, perde uma parte fundamental dessa cultura.

Você ajudou a construir espaços de visibilidade LGBTQIA+. A própria comunidade também pode ser preconceituosa?

Heitor Werneck: Com certeza. Pertencer a uma minoria não torna ninguém automaticamente livre de preconceitos. Existe racismo, transfobia, gordofobia, capacitismo e muito etarismo dentro da própria comunidade. Precisamos conseguir olhar para dentro também. Não podemos exigir inclusão da sociedade e repetir exclusões entre nós.

Descobrir o autismo na vida adulta fez você rever situações em que foi chamado de difícil, excêntrico ou “esquisito”?

Heitor Werneck: Muito. Durante anos, várias características minhas foram interpretadas como birra, mania ou simplesmente como o Heitor sendo difícil. Quando você recebe uma explicação, começa a revisitar a própria história e percebe que muitas situações poderiam ter sido compreendidas de outra maneira. O diagnóstico não mudou quem eu sou. Ele me deu ferramentas para entender melhor quem sempre fui.

Você trabalha com pessoas em situação de rua. O que mais o revolta quando olha para essa realidade?

Heitor Werneck: A invisibilidade. A pessoa deixa de ter nome e vira simplesmente “morador de rua”. Ninguém pergunta quem ela era, de onde veio, se tem família, se está doente ou o que aconteceu para chegar ali. Quando você acrescenta velhice, saúde mental ou o fato de ser LGBT, a vulnerabilidade pode ser ainda maior. Precisamos de acolhimento e políticas públicas de verdade, não apenas ações pontuais.

Depois de enfrentar um câncer, sua relação com prazer, sexualidade e liberdade mudou?

Heitor Werneck: Muda porque você entende que a vida não é uma coisa garantida. O Luxúria nasceu depois de um período muito difícil e acabou sendo também uma maneira de voltar a sentir prazer pela vida. Quando você passa por uma experiência assim, algumas convenções deixam de ter importância. Você começa a pensar muito mais sobre o que realmente quer fazer com o tempo que tem.

Existe alguma coisa que ainda choque Heitor Werneck?

Heitor Werneck: Violência me choca. Preconceito me choca. Ver uma pessoa com fome e todo mundo passar sem olhar me choca. Sexualidade consensual entre adultos nunca deveria ser o grande escândalo da sociedade. Para mim, escandaloso é alguém ser humilhado, agredido ou abandonado porque é diferente. Depois de tudo o que vivi, continuo achando que falta de humanidade é muito mais chocante do que qualquer fetiche.

(Fotos: Divulgação)

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